HABEMUS CORAGEM E LIDERANÇA

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Francisco certamente ocupa um lugar na história contemporânea, desde  Churchill não temos um líder tão diagonal e respeitado. Seu pontificado está marcado na igreja católica como o mais ousado e reformador desde o papa João XXIII.

Desde o momento em que Jorge Mario Bergoglio escolheu o nome de Francisco para seu papado, em 2013, mandou um recado ao mundo. A Igreja Católica, que nos últimos anos havia sido comandada por João Paulo II e Bento XVI, considerados de uma escola moderada, sairia de dentro de si mesma e se abriria para o mundo. Concretamente, isso tem significado ter um Papa que sorri, faz piadas, carrega seus próprios pertences, veste o que há de mais simples – um verdadeiro desafio, quando falamos de um armário recheado de coroas e panos suntuosos –, mas também negocia acordos de paz, como no caso da intermediação que fez entre as Farc e Governo colombiano, e não foge de temas delicados para a Igreja, como divórcio, homossexualidade e machismo.

Três grandes eixos administrativos (transformação da Cúria, a reforma financeira e a luta contra os abusos de menores), foram fruto do esforço do pontificado de Francisco e encontraram constantes resistências ao longo destes cinco anos. Recentemente o bispo e ultimo papa Ratzinger falava em sua carta de “preconceitos” contra o Francisco e o defendia das críticas. Acusado de herege, penduraram cartazes em Roma contra ele e foram criados dezenas de blogs com mexericos. Com seu humor bem afiado, o Papa disse que essas dificuldades têm de ser apresentadas e ele as estudará com equilíbrio. 

Talvez o mais controverso esforço do chefe da igreja católica está na reformulação das finanças do Vaticano, por exemplo. A boa notícia desta ação nos últimos cinco anos foi a redução do déficit associado a criação de novos órgãos de controle, fechamento de contas suspeitas e maior transparência. Sob o olhar atento de Francisco, não se admitem trapaças, e mais, agora quem faz uso deste expediente paga tal ato nas barras da justiça.

Prova disso é o julgamento por lavagem de dinheiro e malversação de fundos do ex-presidente do Banco do Vaticano (IOR), Angelo Caloia, e do advogado Gabriele Liuzzo. O lado ruim é que dois dos três vértices que deviam guiar a grande reforma financeira foram um fiasco: o super ministro das Finanças cardeal George Pell aguarda julgamento na Austrália por abuso de menores e o auditor de contas Libero Milone caiu por denuncia de ter espionado supostamente altos cargos da Santa Sé. No triângulo só resta o brilhante cardeal alemão Reinhard Marx, que pilota o Conselho para a Economia.Muito embora tenha ocorrido acidentes de percurso, o lado significativamente positivo é que hoje a tolerância é zero para qualquer membro da Santa Sé, inclusive para os próximos do pontífice.

Seu pontificado também luta contra os abusos de menores criando uma promissora comissão para a prevenção de casos. Continua sendo uma ferramenta muito útil. Mas as duas vítimas incluídas saíram com estardalhaço e denunciando inadmissíveis resistências da Cúria. E, apesar de o Vaticano ter dito recentemente que o papa se reúne às sextas-feiras com outros sobreviventes de abusos, sua luta voltou a ser questionada internacionalmente quando o próprio Pontífice pôs em dúvida – disse que se não houvesse provas eram calúnias – acusações de algumas pessoas durante sua viagem ao Chile.

No Brasil

Segundo o historiador e padre José Oscar Beozzo, em recente entrevista ao jornal "EL PAÍS", afirmou existir um pequeno núcleo de resistência na igreja no Brasil, que remonta um movimento histórico que não aceitou as mudanças do Vaticano II. Durante o Concílio, havia em Roma uma articulação conservadora e o secretário desse grupo era o brasileiro Dom Geraldo de Proença Sigaud, arcebispo de Diamantina. Além dele, havia Dom Antonio Castro Maia, bispo de Campos dos Goytacazes. Eles eram lideranças episcopais do movimento Tradição, Família e Propriedade [organização civil que apoio a ditadura militar no Brasil].

Ainda conforme Beozzo, haviam outros que não concordavam com as mudanças, mas que depois acabaram aceitando, entre outras coisas estabelecidas, que deveriam, por exemplo, rezar a missa em português e não mais em latim. Castro Maia não aceitou a liturgia do Vaticano II e acabou se separando da Igreja e passou para a Fraternidade Pio X, que reúne os integristas que não aceitaram o Concílio. Desse grupo, que durante o papado de Bento XVI, foi reintegrado à Igreja, há uma ala que resistiu e entrou em conflito aberto com o Papa Francisco. Mas é algo pequeno e localizado. Afinal o Papa é o Papa e, por mais que haja discordâncias, não há no Brasil um bispo que levantou bandeira contra o Francisco. Há nos Estados Unidos, na Itália, na França, mas aqui não. O que há, acredito, é certo corpo mole: deixa passar, dizem, pois este papado não vai durar para sempre. É claro que há dissidências, mas elas não são ditas publicamente. Se você pegar todos os bispos do Brasil, que são 485 entre os eméritos e os que estão na ativa, os nomeados pelo Papa Francisco são apenas 16%, chama atenção Beozzo.

Reconhecimento fora da igreja


Nada mais distante de um Papa da Igreja Católica. Mas Francisco mudou tudo. Inclusive a visão de liderança de um pesquisador judeu, acostumado a remexer no interior das empresas e dar conselhos a seus donos sobre como dirigi-las melhor.Kermes é filho do Holocausto, ainda que tenha nascido em Chicago. Seus pais se conheceram nos Estados Unidos, mas ambos – de ascendência judia – fugiam de Hitler. A área de trabalho de Kermes é o estudo da forma como os líderes das grandes corporações industriais, comerciais e de serviços, assim como líderes políticos e militares exercem suas influências.

Com a comemoração dos cinco anos de pontificado de Francisco, o mundo editorial colocou em circulação alguns textos que falam do Papa, de suas fontes de inspiração, dos problemas que tem enfrentado na renovação da Cúria Romana, dos problemas das finanças no Vaticano, etc. Mas poucos têm sido tão especiais como fez, em 2014, Jeffrey A. Kermes, um especialista em questões de liderança.A partir disso, Kermes escreveu um livro interessantíssimo: “Liderar com humildade. 12 lições de liderança do Papa Francisco”.


Eis aqui a lista das lições…

1 -Liderar com humildade. O segredo está na ideia de que não se tem uma posição predominante sobre os outros, não se deve usar esta posição para esmagá-lo, mas sim para acompanhar os demais em suas tarefas vitais. O diálogo é a porta de entrada para mostrar o que o outro significa para mim.
2 - Cheire como o seu rebanho. Já se tornou conhecida a frase do Papa sobre os pastores “com cheiro de ovelha”. Isso não se aplica somente aos padres, mas principalmente aos líderes. Além de uma atitude cosmética ou de “relações púbicas”, o cheirar como o rebanho é sinônimo de amor ao próprio rebanho.
3 - Quem sou eu para julgar? Talvez esta seja a frase do Papa Francisco mais conhecida no mundo: “Se alguém é gay, busca a Deus e é de boa vontade, quem sou eu para julgar?” Este pensamento é uma das formas mais sutis e efetivas de liderança, pois o líder não julga; avalia.
4 -Não mude, reinvente. Muitos são contra a ideia de que o Papa Francisco “está mudando tudo” dentro da Igreja. Na verdade, ele não mudou nada; apenas reinventou a maneira de viver o Catolicismo. Desde o conclave – que finalmente o elegeria Papa – até hoje, seu método é o mesmo: a misericórdia.
5 - Inclusão como prioridade absoluta. Uma das formas de liderança menos estudada é justamente a de Francisco: incluir todos, os de dentro e os de fora da Igreja, os “justos e pecadores”. Como? Pedindo a todos que rezem por ele.
6 - Evitar o isolamento. O primeiro gesto do Papa foi transitar dentro e fora dos departamentos papais, fora de uma ilha. Ele precisava do contato com as pessoas, caso contrário ficaria doente. Nenhuma liderança pode ser exercida dentro de uma ilha.
7 - Preferir o pragmatismo à ideologia. Em várias ocasiões, Francisco deu a chave para abrir a porta da condução dos seres humanos: a realidade está acima da ideia. Quando atuamos de maneira contrária, inclusive na missão católica, colocamos os cavalos atrás da carroça.
8 - Foco na tomada de decisões. Aqui é onde Krames se rende a Francisco. Ele diz aos líderes que usem o método do Papa para tomar decisões em suas empresas, casas, trabalhos e escolas. Mas qual é este enfoque? Consultar os outros, discernir, tomar o tempo, rejeitar “o fígado”.
9 - Dirija sua organização como se ela fosse um hospital de campanha. O Papa disse: a Igreja é um hospital de campanha. Primeiro, cura as feridas sem perguntar. Depois, acompanha. Finalmente, confia na liberdade de cada um. As feridas são curadas com o amor. E o amor faz perguntas.
10 - Viva na fronteira. A fronteira não é um lugar físico, não é uma linha ou muro. É a maneira de ser testemunha. Krames disse que é a combinação de uma atitude mental positiva e aberta juntamente com a coragem e a audácia de sair da zona de conforto. A fronteira é tudo aquilo “que não gira ao seu redor”.
11- Enfrentar a adversidade cara a cara. O Papa Francisco sabe que, se ele cometer um erro, o pior que ele pode fazer é ocultá-lo. O líder pode errar. O homem é pecador. O líder deve reconhecer seu erro (para o bem do seu grupo), como o pecador a sua falta (para o bem de sua alma).
12 -Prestar atenção aos não-clientes. Uma das grandes conquistas de Bergoglio tem sido, justamente, a de atender inclusive os que são contra o Catolicismo. Sua aproximação com protestantes, luteranos, anglicanos, muçulmanos e judeus é um exemplo fascinante para todos. Porque se amamos somente a quem nos ama…


Por hoje é só e que DEUS nos Abençoe!




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