A INDIFERENÇA FAZ A DIFERENÇA

Não é preciso muito esforço para perceber que vivemos em uma sociedade utilitarista, descartável, organizada por classe de consumidores e influenciada pela mídia fácil.É bem verdade que escrevendo algumas linhas deste texto, me recordo que uso uma ferramenta que facilitou muito um sujeito sem exposição como eu, a escrever algumas bobagens por conta própria, o blog.
 
Em tempos de ignorância farta no horário nobre, e com tantas redes "comer"sociais, todos procuram seu momento de Machado de Assis , Shakespeare , Marx, escrevendo o que pensa, e o que mostra também "que não pensa" nestas redes.O que vemos é a indiferença que esta força desmedida produz na intelectualização das sociedades. 

Havia alguns anos um bom material animado, de criação da Tide Foundation e narrado por Annie Leonard titulado originalmente como " The Story of Stuff ", ou em bom português, a  História das Coisas. Isto não tinha nenhum propósito filosófico, apenas era um manifesto para uma sociedade que tem pressa de viver,desapercebida , indiferente á aquilo que não vê.Neste ponto podemos recordar de Antonio Gramsci a sua posição em relação a organização social, que para ele cabia ao homem da sociedade seu papel filosófico...pois bem vamos descomplicar...afinal, era filosófico ou não o manifesto narrado por Annie...deveria na visão de Gramsci ser...mas somos indiferentes áquilo que não se materializou sob nossos pés...

John Stuart Mill, um utilitarista confesso e defensor da máxima felicidade, descreve de forma humorada em sua obra "Bentham" (1838)  a filosofia especulativa, que para ele , aos "superficiais" parece algo  tão remoto das coisas práticas da vida e dos interesses exteriores dos homens, que é na realidade o que mais os influencia neste mundo, e no longo prazo sobrepuja qualquer outra influência, exceto,aquelas que ela própria tem de obedecer...aqui caberia uma atenção especial neste legado, pois ao obedecer algo aparentemente superficial, a sociedade se torna indiferente ao essencial....ainda que não se esgote uma questão hedônica (teoria do prazer), pois em sua visão ao um valor intrínseco das "coisas", ele completa que uma pessoa com uma crença é um poder social igual a noventa e nove que possuem apenas interesses.

A sociedade construiu também um pedestal para uma "educação utilitarista", onde o capital sobrepuja em grande medida o prazer da descoberta do conhecimento, colocando na cabeça de uma sociedade jovem a opção pela carreira em busca do capital, o que acho justo, mas não só sobre o capital. Aqui podemos observar claramente a indiferença pelo prazer da profissão futura, onde o que fala mais alto são as chances de uma carreira econômica bem sucedida. 

Émile Durkheim,um dos expoentes da sociologia contemporânea investigava o que chamava de " fracasso escolar", atribuindo seu resultado em si como conseqüência da homogeneização do ensino, onde todo o grupo social recebe uma espécie de modelo ideal de educação para todos. Por conta disto, Durkheim apontava que tal situação era resultado de um contexto em que a educação oferecida pelas escolas apresenta um caráter pragmático e utilitarista.
 
Em outras áreas de intelecto como cinema ,dramaturgia , literatura temos exemplos da indiferença da arte proposta pela perpetuação da obras.Hoje não consigo falar de produções cinematográficas duradoras como Guerra nas Estrelas , O Poderoso Chefão entre outras obras clássicas que priorizam o diálogo e a interpretação dos atores, sem efeitos pirotécnicos de imagens e sons...ja não lembro de programas de TV que duraram como a Vila Sézamo, Sitio do Pica-Pau Amarelo (hoje virou uma animação horrorosa)...é estamos em um mundo de reality show..será saudosismo...talvez sim, mas aposto em uma preocupação com o conteúdo deixado...penso que somos o que escolhemos, então a sociedade que é um conjunto de "somos", será isto, indiferente ao que dura, que multiplica,que forma e transforma...
 
Vou apaziguando o ambiente deixando-os em  na boa companhia de Bertrand Russel....até a próxima e que DEUS nos Abençoe!!! 
 
"A ênfase na competição da vida moderna está ligada ao declínio geral dos padrões civilizados, tal como deve ter ocorrido em Roma após a era do imperador Augusto.Homens e mulheres parecem ter se tornado incapazes de gozar os prazeres mais intelectualizados. A arte geral da conversação,por exemplo,que foi levada á perfeição nos salões franceses do século XVIII, era ainda uma tradição viva á quarenta anos.Era uma arte bela e delicada, capaz de mobilizar as mais elevadas faculdades em nome de algo inteiramente evanescente. Mas quem, em nosso tempo, se importa com algo tão supérfluo?" (Frase retirada da obra The conquest of happiness,1930,Bertrand Russel) 





 
 
  

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